Sucessão
Quando cheguei aqui, não tinha uma alma viva para contar história. Era um ambiente extremamente inóspito, com vinte sóis para cada cabeça. Aos poucos foram surgindo algumas comunidades, vizinhos restritos a pontos estratégicos com mais sombra e água, pareciam até sapos, precisavam da terra, mas as crianças só surgiam depois da chuva. Depois chegou um povo meio esquisito, ou será que eles já estavam aqui e eu nunca tinha percebido? De qualquer, esse povo é estranho. Longe de mim querer julgar alguém, até porque, quem sou eu na fila do sol? Mas, sinceramente, acho extremamente peculiar esse relacionamento interespecífico. Onde já se viu um fungos se relacionarem com algas? Fazer amizade tudo bem, mas viver em codependência já é demais.
Com o passar do tempo, fui me acostumando e conseguindo me estabelecer no bairro. Consegui formar família e acabamos dominando o pedaço. Na verdade, meus primos se deram melhor, conseguiram um terreno maior, com mais luz natural, porém não sei se é possível existir outro tipo de luz. Também não sei porque eles ganham mais prestígio da população de gigantes, são convidados a morar em condomínios, enquanto eu sou desprezada. É extremamente absurdo, eu, que dou flores coloridas, ser chamada de danosa, daninha, que seja. Eles não sabem a dor de ver seu irmão sendo arrancado pelas raízes, achando que seria levado para esses loteamentos chiques, contudo foi posto num saco preto e nunca mais deu notícias. Só ficamos sabendo, através de um casal de maritacas (umas baitas fofoqueiras), que ouviram ele agonizando até a morte. Elas não são confiáveis, então quero acreditar que é apenas raiva por não darmos frutos para elas.
Os anos foram se passando, o luto se acalmando e o bairro crescendo. Foi chegando gente nova, projetos de árvores (arbustos, talvez), e junto com esse povo vieram mais animais. Esse foi um momento de glória, ver os primos metidos a ricos sofrendo com o sol diminuindo e o apetite voraz das aberrações. As gramas se acham tão espertas, mas qualquer sombrinha, qualquer pisada de pata já é motivo para depressão. Por isso, nós ervas somos melhores, um excelente exemplo é meu irmão Evaldo que foi tentar a vida na cidade e se deu muito bem. Todos diziam que ele não aguentaria o asfalto quente de São Paulo, mas lá está ele firme e forte. Inclusive tem uns seres que nos classificaram como gourmet, deram um nome chique e poderoso, PANC.
Contudo, nem tudo são flores, apesar de existirem diversas na região. Elas são fruto, ou melhor, predecessoras, do decaimento da nossa comunidade Poacea. O que antes era um bairro pacato, virou vilarejo, cidade e agora uma floresta. E, com isso, ficou mais difícil de viver. Os recursos ficaram mais escassos e precisamos competir pelo nosso lugar ao sol. Assim como impérios, nós graminhas tivemos nosso fim.
Incrível! Nunca tinha lido um conto na perspectiva de uma planta. Que dirá uma erva daninha. Muito divertido, em tom de crônica...
ResponderExcluirMe lembrou um tanto a música 'The Trees' do Rush. Também é pela perspectiva de plantas e também tem comentário social astuto sobre a espécie humana na analogia à qual as plantas servem.