Dia de domingo
Adalberto acordou num domingo de manhã, o sol brilhava e aquecia o mundo. Alguns raios de luz iluminavam o quarto pelas frestas da cortina. Ele olhou pro lado, em direção a mesa de canto, onde permanecia o relógio. Eram 7 horas. Ele não tinha ideia que era tão cedo. Pensou em voltar a dormir, mas lembrou da promessa de mudar seus hábitos. Levantou-se, lavou o rosto e trocou de roupa.
Hoje é um novo dia, pensou ele, vou fazer aquela caminhada no parque e ser saudável. Adalberto andou até o parque da cidade. Colocou os fones de ouvido e começou a ouvir uma banda desconhecida de Moscou. Depois de algumas voltas, resolveu descansar, observar o movimento dos outros insetos no parque. Quem um dia irá dizer que não existe razão pelas coisas feitas pelo coração? Renato Russo cantava em seus ouvidos, quando Bebeto (apelido que mãe de Adalberto deu) pousou os olhos compostos na mosca mais linda que ele já viu. Ela estava no seu momento zen, às 8h30 da manhã de domingo. Ela fazia yoga, mas ao mesmo tempo parecia estar num estado meditativo. Ele a observava admirado. Parecia que todo movimento que ela fazia era executado com a mais fina maestria. Beto não conseguia acreditar se tamanha perfeição era real.
Hoje é um novo dia, ele repetiu. Tomou a coragem de um bêbado e foi conversar com a moça mosca. Com todo cuidado do mundo, se apresentou, comentou como o dia estava lindo e como ela se movimentava com elegância. Aparentemente moscas são capazes de corar, pois de mosca-branca, ela passou para mosca-vermelha. Disse que seu nome era Ana e perguntou a Betinho (acreditem, ele se apresentou pelo pior apelido dele, isso que é nervosismo) se ele era novo na cidade, já que era a primeira vez que ela o vira no parque. Ele ficou envergonhado e tentou disfarçar falando que ele geralmente trabalhava aos domingos com artesanato, por isso não saia muito. Eles conversaram por um tempo e Bebeto convidou Ana para almoçar com ele em uma churrascaria que inaugurara dias antes. Ana disse que ficou lisonjeada com o convide, mas que só comia hortaliças e que já tinha planos com algumas amigas para o resto do dia, no entanto poderiam marcar para outro dia. Ele concordou e falou que eles poderiam dar uma volta pela cidade ou assistir um filme durante a semana e ela aceitou.
Despediram-se e cada um foi para um lado. Adalberto passou por uma banca de jornal e resolveu comprar uma revista sobre refeições chiques (ele realmente queria impressionar a mosca). Quando chegou em sua casa, ficou observando a revista e depois passou por sua cabeça que só conseguia ler quando estava atendendo ao chamado da natureza. Aproveitou que estava apertado, pegou a revista e se dirigiu ao banheiro. Enquanto lia, só conseguia pensar naquela moça maravilhosa. Ele se perguntava como uma linda mosca-branca poderia ter achado uma simples varejeira interessante.
Passou o dia e logo já era segunda. Ele estava ansioso e resolveu mandar uma mensagem para ela. Encontrariam-se na galeria de artes depois do expediente. A segunda parecia passar mais devagar que o normal, cada hora durava três horas. Finamente chegara o horário do encontro. Adalberto se dirigiu à galeria. 18 horas. Ana ainda não estava lá, então esperou. Passou-se uma hora e nada da mosca. Esperou mais duas horas até cansar e ir embora. Ele sabia que não dava pra confiar em moscas bonitas, elas sempre mentiam. Dormiu tristonho e acordou no dia seguinte sem vontade de levantar. As contas não se pagam sozinhas, lembrou ele e finalmente tomou rumo à sua rotina. Resolveu ligar a TV, ver o que passava no jornal. As mesmas notícias de sempre se repetiam, nas com nomes e locais diferentes. Uma chamou atenção dele. Um acidente terrível na zona rural por conta de agrotóxicos. Entre as vítimas, estava Ana, a mosca-branca.
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